“OS SINOS SE DOBRAM POR ALFREDO”
Baseada no livro de Paulino Eidt, peça será encenada pela Cia. Clandestinos de Florianópolis que conta em seu elenco atores locais. A turnê do espetáculo gratuito percorrerá quatro municípios: São João do Oeste (23 de julho no Pavilhão Comunitário); Itapiranga (24 e 25 de julho na Sociedade Imigrantes); Iporã do Oeste (27 de julho no auditório do Centro Educacional (CEAM) Espaço Multiuso) e Tunápolis (28 de julho no Clube SORAST)
Os colonos entravam no mato do Porto Novo a partir de 1926 cantando, diz a história. Cantando e teatralizando. Os pioneiros da primeira etapa da colonização, bem como os das fases seguintes, trouxeram consigo o espírito da encenação: representar o outro, relembrar o passado e projetar o futuro. O teatro era uma forma de aliviar as tristezas diante das dificuldades dos anos iniciais na mata catarinense e da separação dos familiares que permaneceram no Rio Grande do Sul. O teatro era também uma forma de manifestar os desejos a serem alcançados no futuro. Assim, a história de 100 anos da região está repleta de artes cênicas.
Nos primeiros anos, sob forte influência do ideal religioso, as encenações tinham como foco o mundo sacro: a vida e o sofrimento de Jesus, dos santos, da perdição dos pecadores, da trajetória da igreja. E esse tipo de encenação, num teor mais atualizado, permanece hoje ainda em praticamente todas as comunidades e igrejas.
Em recente incursão realizada por comunidades de Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis, ouvimos relatos e vimos fotografias de pequenas encenações feitas na Semana Santa. Jovens e adultos, mulheres e homens se vestem a rigor, têm o acompanhamento de corais e são efusivamente aplaudidos pelos presentes nas celebrações natalinas.
Num segundo momento, o teatro em Porto Novo segue uma trilha de humor bem-comportado, sem apelações sensuais ou agressões, estilo “bullying”. Nesta linha estão as peças de teatro dos seminaristas de Porto Novo, que estudavam como candidatos a padres, irmãos ou irmãs. Estas peças anuais, iniciavam com cantos populares ou de igreja com acompanhamento de violão, seguiam com uma cena religiosa, indicando o “certo” a ser seguido e o “errado” a ser evitado. Por fim, vinham as cenas de humor ingênuo, algumas já clássicas e outras inventadas.
Num momento seguinte, aparecem peças de teatro já um pouco mais críticas, fazendo troça da ordem política, econômica e social. São os teatros de colégios de alunos do ensino fundamental e do ensino médio das escolas, apresentados em datas cívicas ou horas culturais. Não raro, em função de seus espezinhamentos, enfrentavam problemas com admoestações e proibições por parte da autoridade constituída na escola, na igreja e no município.
Entre os exemplos conhecidos estão: 1) a peça “Os Três Mártires Riograndenses”, escrita em alemão pelo padre Afonso Hansen e encenada por grupos de Tunápolis e de Beato Roque; 2) o Grupo de Teatro de São João do Oeste que apresentou, em alemão, nos anos de 1960, a comédia “Stein Hoff Bauen” sobre o dia a dia dos colonos; 3) os seminaristas de Sede Capela, Pareci Novo, Salvador do Sul (Kappesberg), São Leopoldo, nas férias de verão, apresentavam nas comunidades, onde este teatro que era muito apreciado, com mensagens católicas e cenas de humor; 4) os alunos do terceiro pedagógico de 1977 da Funei apresentavam em Itapiranga em diversas comunidades, inclusive do RS, a peça teatral com cenas educacionais, de humor, sátiras políticas e econômicas; 5) a montagem de “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes, apresentada por alunos, professores e convidados por cinco noites seguidas na sociedade Kolping de Itapiranga com salão lotado, além de apresentações em São Paulo, Campos Novos e Porto Alegre; 6) uma peça crítica sobre a realidade política contemporânea local e nacional, organizada por líderes do Centro Cívico Escola Ludgero Wiggers, alunos e professores da Funei, apresentada em várias cidades, mas censurada, tendo seguido sob o nome de “Grupo Menopausa”.
Agora, no centenário de Porto Novo, pretende-se escrever mais um novo capítulo no teatro da região. A forma será inovadora: o grupo profissional CIA CLANDESTINOS, de Florianópolis, com a participação de atores e atrizes de Itapiranga, Tunápolis e São João do Oeste, levará a palco em julho deste ano a peça “Os Sinos Se Dobram por Alfredo”. A obra é baseada na tese de doutorado em Antropologia defendida por Paulino Eidt na PUC de São Paulo, que virou livro – cuja terceira edição estará disponível na semana do espetáculo e durante todo o ano centenário. Atores e atrizes da companhia já realizaram 18 palestras-show nas escolas dos quatro municípios de Porto Novo na primeira semana de maio, com sucesso completo, muitos aplausos e muita vibração.
“Os Sinos Se Dobram por Alfredo” será apresentado em São João do Oeste, Itapiranga, Iporã do Oeste e Tunápolis (veja datas e locais acima). A entrada é gratuita. O público deve acessar os locais até as 19 horas ou, no máximo, até as 19h15. O horário das sessões é pontualmente às 19h30. Todos estão convidados.
Por Enio Luiz Spaniol


