Histórias que inspiram: Bruno Silvestre e Crecilda Berwanger

A história de Porto Novo, foi construída por homens e mulheres que tiveram a coragem de transformar sonhos em caminhos. Entre matas fechadas, estradas precárias, rios e muitas dificuldades, os pioneiros chegaram trazendo consigo a esperança de uma vida melhor, a força do trabalho e o desejo de construir um novo futuro para suas famílias. Cada roça aberta, cada casa erguida, cada igreja, escola, comércio e comunidade que nasceu representavam muito mais do que uma conquista material: simbolizavam a confiança no amanhã. Com união, fé, perseverança e espírito comunitário, essas famílias transformaram desafios em oportunidades e lançaram as bases de uma região marcada pelo trabalho e pela cooperação.

Recordar o pioneirismo de Porto Novo é reconhecer que o presente foi construído pelo esforço de muitas mãos. É valorizar aqueles que enfrentaram o desconhecido, cultivaram a terra, empreenderam, criaram seus filhos e fizeram nascer comunidades onde antes havia apenas caminhos a serem abertos. A família Berwanger é um exemplo dessa trajetória. Ajudaram a construir a comunidade de Sede Capela, onde constituíram sua família, empreenderam e geraram possibilidades de futuro.

Bruno Silvestre Berwanger

            Nasceu na localidade de Boa Vista, então interior de Estrela-RS no dia 9 de maio de 1906, filho de Mathias Berwanger e Maria Ana Rockenbach. A família Berwanger é natural da Alemanha e imigraram para o Brasil em 1846. Já estabelecida no Brasil, mantiveram um alambique e se dedicaram à agricultura, com o plantio de cana de açúcar para a produção de cachaça, além da suinocultura e da bovinocultura.

Crecilda Haas

            Crecilda nasceu em 30 de setembro de 1916, em Santa Cruz do Sul-RS, filha de Godofredo Haas e Florentina Assmann. A família Haas é natural de Pünderich na Alemanha e imigrou para o Brasil acompanhando a onda de imigração do século XIX. Godofredo e Florentina Haas migraram em 1937 com os filhos Albino, Crecilda, Frida, Irma, Ludmila, Zeno José, Ivo e Rudi para Porto Novo, estabelecendo-se na localidade de Sede Capela. Em Porto Novo a família Haas trabalhou na agricultura.

Porto Novo, um caminho em comum

            Na década de 1930, muitas famílias descendentes de imigrantes alemães deixaram as antigas colônias do Rio Grande do Sul em direção a Itapiranga, então conhecida como Colônia Porto Novo. Para essas famílias, migrar para Itapiranga significava muito mais do que simplesmente mudar de lugar, representava a esperança de recomeçar a vida e construir um futuro melhor. O sonho de possuir a própria terra, ampliar a produção agrícola e alcançar maior autonomia econômica acompanhava a expectativa de formar comunidades organizadas em torno da família, da escola, da igreja e do espírito empreendedor desses migrantes. Ao mesmo tempo, a mudança demandou enfrentar grandes desafios: longas viagens, estradas precárias, extensas áreas de mata, isolamento e a necessidade de construir praticamente do zero casas, lavouras e estruturas comunitárias. Assim, a colonização de Itapiranga foi marcada por uma combinação de necessidade e esperança: para muitos migrantes, aquelas novas terras representavam a possibilidade de transformar o esforço de uma geração em patrimônio, estabilidade e melhores condições de vida para as gerações futuras.

            A partir desse espírito pioneiro, a família Haas estabeleceu-se na pujante comunidade de Sede Capela, estabelecendo-se em um lote colonial para atuar na agricultura. Mais tarde essa família adquiriu a propriedade da família Rhode, que atuaram na administração da colônia e já haviam retornado para Porto Alegre. Bruno Silvestre, assim como muitos jovens da época, migrou solteiro para Porto Novo, estabelecendo-se também na localidade de Sede Capela. Aliás, Sede Capela era uma referência para a colonização na época, onde moravam muitas famílias e havia muitas atividades comerciais e manufatureiras, além de médico e hospital e mais tarde inclusive um pré-seminário e uma escola ginasial.

            Em Sede Capela, Bruno Silvestre e Crecilda se conheceram e iniciaram o namoro, sob as regras morais rígidas e típicas de uma geração. Casaram-se na igreja de São José de Sede Capela em 16 de abril de 1940. A família Berwanger morou em um lote na foz do Rio Fortaleza com o Rio Uruguai, sendo vizinhos da família do Dr. Neff. As dificuldades dos primeiros tempos foram inúmeras, mas o desejo de prosperidade foi um fator muito importante para construir um lar sólido e íntegro.

            Os quatro filhos do casal, Maria, Hilga Maria, Arno Walter e Nilo Lauro, puderam encontrar na família uma inspiração e na comunidade de Sede Capela as possibilidades de uma infância e juventude plena e intensa. Na comunidade havia escola, igreja, grupos de jovens que encenavam peças teatrais e promoviam atividades culturais. A exuberância da natureza e a majestosidade do Rio Uruguai eram um cenário inspirador para uma vida feliz e prazerosa.

            Dos filhos Berwanger, Maria faleceu ainda criança, Hilga Maria casou-se com José Buche Sobrinho, Arno Walter casou-se com Aloísia Romilda Schwengber e Nilo Lauro casou-se com Aidê Schoeler. Após uma longa vida de muito trabalho e espírito comunitário em Sede Capela, Bruno Silvestre faleceu em 25 de fevereiro de 1972 e Crecilda faleceu em 19 de março de 1994.

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Da esquerda para a direita: Nilo Lauro Berwanger, Aidê Schoeler Berwanger, Padre Otmar Jacob Schwengber SJ, Aloisia Romilda Schwengber Berwanger, Arno Walter Berwanger, Hilga Maria Berwanger Buche e José Buche Sobrinho

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Residência da família Berwanger em Sede Capela, tendo ao fundo o majestoso Rio Uruguai

Empreendedorismo em Porto Novo

Na década de 1930, o processo de colonização de Itapiranga foi acompanhado pelo surgimento de inúmeras iniciativas empreendedoras, criadas para atender às necessidades de uma colônia que recebia uma grande onda de colonos. Muitos pioneiros, além de trabalharem na agricultura para produzir alimento, passaram a desenvolver atividades comerciais e industriais, abrindo pequenos armazéns, moinhos, serrarias, ferrarias, marcenarias, padarias, sapatarias e outros estabelecimentos. Esses negócios geralmente nasciam do conhecimento técnico trazido pelas famílias de suas regiões de origem, da capacidade de aproveitar os recursos disponíveis e, sobretudo, da necessidade de oferecer produtos e serviços que antes exigiam longos deslocamentos. Dessa forma, o empreendedorismo tornou-se parte fundamental da construção econômica e social de Porto Novo, transformando pequenas oficinas familiares em pontos de encontro, trabalho e circulação de mercadorias. Mais do que buscar prosperidade individual, esses pioneiros contribuíram para estruturar as comunidades, gerar oportunidades e lançar as bases do desenvolvimento econômico local.

Nesse contexto, Sede Capela acabou se tornando uma referência pelas casas comerciais (das Geschäft) que se constituíram naquela localidade, além de inúmeras fabriquetas e pequenas manufaturas das mais variadas. Bruno Silvestre, em parceria do sócio Walter Bruno Koelln, fundaram uma empresa de comércio e transporte de toras por meio de balsas. Na época, o ramo da madeira passou a se tornar um excelente negócio. As toras eram retiradas do mato por colonos e transportadas até Sede Capela, onde ficavam amarradas no remanso da foz do Rio Fortaleza. Com a aproximação da época de enchente, eram preparadas as balsas que eram transportadas pelo Rio Uruguai para serrarias no Rio Grande do Sul e também na Argentina. A atividade balseira foi muito próspera e movimentou a economia local.

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Balsa de toras no Rio Uruguai da Firma Berwanger e Koelln

            Com o surgimento das primeiras serrarias e marcenarias em Porto Novo, aos poucos a atividade balseira começou a se tornar inviável. Assim a firma de Berwanger e Koelln acabou sendo dissolvida. Walter Bruno Koelln iniciou as atividades de uma empresa de ônibus, a famosa Rainha do Sertão. Já Bruno Silvestre permaneceu em Sede Capela e iniciou as atividades de moagem e torrefação de café e descascador de arroz. Essa empresa foi pioneira em Porto Novo, talvez a única no ramo do café na região. O café era trazido in natura de Curitiba e beneficiado por Bruno na sua fábrica. O café, conhecido como Café Uruguai, se tornou um produto muito prestigiado pelos moradores locais.

Maria Rhode, pioneira de Sede Capela, registrou em seu livro Espírito Pioneiro, a impressão sobre o café produzido pelos Berwanger: “Não é que se sente cheiro de café recém torrado? Realmente, até isto existe aqui, que café! Podemos dizer que a fábrica de café de Porto Novo e sua marca não ficam atrás, no quesito qualidade, de nenhuma fábrica de café de cidade alguma, além de seus preços serem bem mais decentes”. Hoje, ao degustar um saboroso café da manhã e sentir o seu aroma, ao fechar os olhos na companhia do rádio e do cantar dos pássaros ao amanhecer, a memória afetiva de Porto Novo, que nos une neste centenário, nos leva por meio da imaginação aos tempos antigos, de uma época em que Porto Novo tinha sua própria marca de café, o Café Uruguai da família Berwanger. São as lembranças e as riquezas de nossa história que tanto nos orgulham e nos inspiram.

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Moedor e depósito de café Berwanger de Sede Capela.

Por Douglas Orestes Franzen

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