Paixão pela história leva família de Tunápolis à Itália

Há lugares que parecem guardar o tempo entre suas paredes. Ruas estreitas conduzem a praças antigas, igrejas revelam detalhes de outros séculos e casas escavadas na rocha preservam histórias de pessoas que viveram muito antes de nós. Na Itália, cada caminhada pode se transformar em uma viagem ao passado. Foi nesse cenário que a família Bruxel, de Tunápolis, desembarcou para uma experiência de 20 dias marcada por descobertas, encantamento e encontros com a história.

A fagulha inicial do roteiro nasceu longe da Itália. Em 2023, durante um encontro familiar na Suíça, ficou selado um pacto entre as fronteiras: a próxima reunião europeia teria como destino a lendária península itálica.

De Santa Catarina partiram Odinei Bruxel, sua esposa Bárbara, os filhos Bernardo e Mathias, e a mãe de Bárbara, dona Cecília. Em solo italiano, o grupo ganhou o abraço aconchegante de Cristine (irmã de Bárbara) e de seu esposo, que viajaram da Suíça para se juntar à caravana catarinense.

2 Odinei, Bárbara, filhos Bernardo e Mathias, e vovó Cecília

“Nós, especialmente a Bárbara, sempre fomos fascinados pela história desse país, das civilizações, arquitetura e belezas naturais,” revela Odinei, ao relembrar o ponto de partida do planejamento familiar.

Entre os dias 3 e 23 de setembro — exatos 20 dias de expedição —, os Bruxel viveram uma imersão profunda que combinou o ritmo frenético da capital imperial com a serenidade rústica do Sul do país.

Roma: caminhar por onde a história aconteceu

A primeira etapa da viagem foi dedicada à capital italiana. Entre os dias 3 e 6 de setembro, a família aproveitou intensamente o tempo disponível para visitar alguns dos lugares mais conhecidos da cidade.

Logo no primeiro dia, próximo ao local da hospedagem, conheceu a Basílica de Santa Maria Maior, onde está o túmulo do Papa Francisco. A visita abriu o roteiro com um momento de significado histórico e religioso.

No dia seguinte, foi a vez do Coliseu, do Fórum Romano e do Palatino, locais diretamente ligados à formação e ao desenvolvimento da antiga Roma.

A programação também incluiu outros pontos turísticos e históricos da capital. Em poucos dias, a família percorreu cenários que testemunharam a ascensão e o declínio do Império Romano, observando de perto a grandiosidade das construções e as soluções arquitetônicas empregadas em épocas muito distantes da atual.

A dimensão dos monumentos foi uma das surpresas da viagem. Para Odinei, impressiona imaginar como obras tão elaboradas foram construídas com os recursos disponíveis naquele período e como tantas delas continuam de pé, apesar da passagem dos séculos.

Vaticano: arte, fé e silêncio

Se Roma impressiona pela grandiosidade de sua história, o Vaticano acrescenta à experiência uma dimensão espiritual. Para a família, essa foi uma das partes mais emocionantes do roteiro.

A visita incluiu a Praça e a Basílica de São Pedro, os Museus do Vaticano, a Capela Sistina e o Castelo de Santo Ângelo. Também houve a oportunidade de conhecer o subsolo da Basílica de São Pedro, onde estão sepultados diversos papas.

Estar próximo desses túmulos, em um espaço central para a história da Igreja Católica, foi uma experiência especial. Mesmo sem participar de uma missa ou celebração, a família encontrou momentos de silêncio e reflexão durante o percurso.

A Capela Sistina ocupou um lugar particular nas lembranças. O ambiente, conhecido pelas pinturas de Michelangelo e pela realização dos conclaves que elegem os papas, reúne arte, história e simbolismo religioso em um mesmo espaço.

“Com certeza, o lugar mais místico é a Capela Sistina”, destaca Odinei, ao lembrar a sensação de estar em um local tão importante para a história da Igreja.

Outro ponto que chamou a atenção foi o acervo dos Museus do Vaticano, com objetos de diferentes culturas e períodos históricos. Entre os destaques estavam peças do antigo Egito, incluindo múmias, além de itens relacionados à Roma Antiga.

Descobertas no sul da Itália

No dia 6 de setembro, a família seguiu de trem para Ostuni, na região da Puglia, onde permaneceu até o retorno ao Brasil. Durante esse período, conheceu cidades como Carovigno, Alberobello, Grottaglie, Lecce, Castro, Monopoli, Polignano a Mare, Ceglie Messapica e Matera.

A região chamou a atenção pela preservação dos centros históricos, pelas construções tradicionais e pelos cenários naturais. Em Alberobello, o destaque são os trulli, edificações construídas em pedra, inclusive nos telhados. Já em Polignano a Mare, as casas erguidas sobre falésias formam uma paisagem característica do litoral do mar Adriático. Em Castro, a família visitou a Grotta Zinzulusa, uma formação natural próxima ao mar Jônico.

“Cada cidade tem características únicas, todas com centros históricos, ruas estreitas, castelos, praças e monumentos. É uma viagem no tempo, literalmente. Ao mesmo tempo que tudo parece igual, é tudo tão diferente”, descreve Odinei.

Entre os destinos, Matera foi o que mais impressionou a família pela relação entre a ocupação humana e as formações rochosas. A cidade é conhecida pelos Sassi, conjuntos de habitações antigas escavadas na rocha calcária, que mostram como as pessoas viviam em outros períodos da história.

Durante a visita, o grupo entrou em uma dessas construções e conheceu ambientes que, no passado, eram compartilhados por pessoas e animais domésticos. Segundo Odinei, a utilização dos espaços e os recursos encontrados para enfrentar as condições da época despertaram especial interesse.

“Estar num lugar como esse, imaginar como viviam essas pessoas e visitar construções tão bem elaboradas com os poucos recursos existentes na época é um mergulho na história”, afirma.

Uma cidade construída na rocha

A visita a Matera começou pelo Palombaro Lungo, antigo sistema subterrâneo de armazenamento de água que, conforme as informações apresentadas no local, tinha capacidade para mais de cinco milhões de litros. A estrutura foi utilizada durante séculos, especialmente para atender às necessidades da população nos períodos secos, e redescoberta na década de 1990.

Depois, a família percorreu ruas antigas e o bairro dos Sassi, onde cavernas e construções escavadas na rocha hoje abrigam residências, lojas, estabelecimentos comerciais e até uma igreja.

Matera também serviu de cenário para produções cinematográficas, como A Paixão de Cristo, Mulher-Maravilha e 007 – Sem Tempo para Morrer, que utilizaram a paisagem local para representar diferentes períodos históricos.

A cidade preserva vestígios de ocupação humana muito antiga e passou por mudanças significativas ao longo do século 20. Em meados daquele século, parte dos moradores foi transferida para bairros modernos devido às precárias condições de infraestrutura e saneamento nos antigos assentamentos. Em 1993, os Sassi de Matera foram reconhecidos como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Para Odinei, conhecer de perto esse patrimônio permitiu compreender melhor as condições de vida de outras gerações e as soluções encontradas para construir e ocupar os espaços.

11 Igreja esculpida na rocha, em Matera
Igreja esculpida na rocha, em Matera

Igrejas, costumes e gastronomia

Além dos monumentos e das paisagens, as igrejas estiveram entre os locais que mais chamaram a atenção da família. Os visitantes procuraram conhecer os templos de cada cidade, desde grandes basílicas até pequenos santuários instalados em espaços incomuns.

“Imaginar a engenharia envolvida em edificações milenares e ver muitas dessas construções resistindo ao tempo é muito legal”, comenta Odinei.

A experiência também revelou diferenças no cotidiano dos italianos. Na Puglia, a família observou o hábito da sesta, período de descanso durante a tarde em que muitos estabelecimentos comerciais fecham por volta das 13h e reabrem depois das 16h. Nesse intervalo, as ruas ficam mais tranquilas, enquanto as noites são marcadas pela movimentação nas praças, nos restaurantes e nos espaços públicos.

Outro aspecto destacado foi a convivência entre as pessoas. “O quanto as pessoas socializam e aproveitam os espaços públicos chamou a atenção. Praças e praias sempre cheias, famílias sentadas na frente de suas casas conversando”, relata.

Na gastronomia, as massas, pizzas, focaccias, panzerotti, cafés e gelatos fizeram parte das descobertas. Odinei destaca a utilização de ingredientes regionais, como variedades específicas de tomates, pimentões e queijos, que dão características próprias aos pratos.

A família também precisou se adaptar a algumas particularidades da infraestrutura das cidades históricas. As ruas estreitas, a falta de calçadas em determinados trechos e a dificuldade para encontrar banheiros públicos foram aspectos que exigiram atenção durante os passeios.

Mesmo com algumas dificuldades de comunicação, a experiência de viajar em família por um país com idioma e costumes diferentes foi considerada tranquila. “Entendo que, quando se tem boa vontade, a língua não é um entrave. Lógico que tivemos algumas dificuldades, mas, no geral, foi bem tranquilo”, avalia Odinei.

Imprevistos também fizeram parte do roteiro

Nem todos os momentos ocorreram conforme o planejado. Durante a passagem por Roma, Bárbara sofreu uma queda ao descer a escadaria da Piazza del Popolo e teve uma pequena fratura no cotovelo. Ela precisou receber atendimento médico e permaneceu com o braço imobilizado por alguns dias.

Em outra ocasião, a família ficou sem acesso à internet durante o retorno de um passeio e acabou se perdendo. O grupo passou cerca de uma hora e meia dirigindo à noite até encontrar o caminho de volta.

Sem raízes de descendência italiana direta — Bárbara e os filhos possuem dupla cidadania alemã —, o motor da viagem foi puramente a paixão pelo conhecimento, pelas artes e pelo convívio familiar.

Fatos Curiosos da Viagem:

  • Autonomia no posto: Na Itália, os postos de combustível operam no sistema self-service. Caso o motorista peça ajuda a um funcionário para abastecer, o preço por litro é consideravelmente mais alto.
  • Acomodação ancestral: Os Sassi de Matera chegaram a abrigar 15 mil pessoas até meados do século XX, quando o governo desocupou a área devido à falta de saneamento. Hoje, revitalizadas, as cavernas abrigam hotéis de luxo, restaurantes e até igrejas inteiras cavadas na rocha.
  • Igreja em uma caverna: Em Carovigno, a família conheceu o Santuário Maria Santissima di Belvedere, construído sobre uma igreja descoberta em uma caverna.
  • Refeições ao ar livre: Em algumas cidades, é comum comprar comida e fazer as refeições em pé ou sentado nas praças, devido à limitação de espaço nos estabelecimentos.
  • Produção de azeite: O cultivo de oliveiras é marcante na região da Puglia, onde a produção de azeite de oliva e azeitonas faz parte da paisagem e da tradição local.
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