A MATERNIDADE QUE NASCEU DO CORAÇÃO

Uma história marcada pela fé e pela persistência que encontrou na adoção o caminho para formar uma família

Em um mundo marcado pela pressa, existem histórias que seguem o ritmo do tempo certo. Histórias que não cabem em calendários, mas se constroem com paciência, fé e uma esperança que não se apaga. Neste Dia das Mães, a trajetória de Claudete Ruschel, é um retrato sensível e profundo de que a maternidade pode florescer de muitas formas — e todas elas têm o mesmo valor quando são regadas com amor verdadeiro.

Uma vida simples, marcada pela força e pelo cuidado

Em meio à rotina tranquila da Linha Santa Fé Alta, no interior de Itapiranga, vive uma mulher que aprendeu a transformar dor em esperança e espera em amor. Claudete Ruschel é conhecida na comunidade pelo jeito acolhedor, pela dedicação ao trabalho e pela presença ativa nas redes sociais, onde compartilha mensagens positivas e seu dia a dia. Mas, acima de tudo, ela é conhecida por uma história de maternidade que nasceu do coração.

“Sou Claudete Ruschel. Além de mãe do coração, sou uma mulher trabalhadora: doméstica, vendedora de enxovais ambulante, cuidadora dos meus pais e influencer digital”, se apresenta. Sua vida é marcada por múltiplos papéis, todos exercidos com empenho e sensibilidade.

A rotina começa cedo, como é comum no interior. “Às 5h50 eu já estou de pé. Preparo meu chimarrão e organizo o meu dia”, conta. Entre compromissos, vendas e cuidados com a casa, há também o acompanhamento constante do filho Andrey, hoje com 17 anos. “Ele nem precisa que eu chame. É focado, comprometido. A gente começa o dia assim, com responsabilidade.”

Essa rotina, hoje tão natural, é fruto de um sonho que levou anos para se concretizar, e que exigiu de Claudete uma das maiores virtudes humanas: a perseverança.

O sonho de ser mãe, ainda na juventude

Muito antes de viver a maternidade, Claudete já sabia o que queria para sua vida. Desde menina, o desejo de ser mãe fazia parte dos seus planos.

“Eu sempre sonhei em ter filhos. Sonhava em ter três”, lembra. Na adolescência, chegou a brincar com as tradicionais “simpatias” para prever o futuro, mas uma delas marcou sua memória. “Teve uma vez que a aliança não se mexeu… parecia dizer que eu não seria mãe. Aquilo me deixou indignada, porque dentro de mim esse sonho sempre foi muito forte.”

Apesar da leveza da lembrança, a vida logo mostraria que o caminho não seria simples.

Um acidente e as marcas no corpo e no sonho

Ainda jovem, trabalhando na roça, Claudete sofreu um acidente que mudaria sua história. Uma pancada forte na região da barriga acabou desencadeando problemas de saúde que, na época, não foram imediatamente tratados.

“Naquele tempo, não era costume ir ao médico”, explica. Com o passar dos meses, as consequências começaram a aparecer. Uma inflamação nos ovários levou à internação e, posteriormente, à necessidade de cirurgia.

“Eu tinha 20 anos quando precisei fazer a cirurgia. Foi retirado totalmente um ovário e o outro parcialmente”, relata. A notícia trouxe incertezas e medos, mas não foi suficiente para apagar o sonho.

“Mesmo diante de tudo isso, eu nunca perdi a esperança de ser mãe.”

Anos de espera, fé e silêncio

Se o sonho permanecia vivo, a realidade exigia paciência. Os anos que se seguiram foram marcados por tentativas frustradas e uma espera que parecia não ter fim.

“Foram 17 anos de espera, mas também de muita fé”, resume Claudete. Durante esse período, ela viveu momentos intensos, especialmente aqueles em que a esperança parecia mais próxima.

“Cada vez que minha menstruação atrasava, eu criava uma expectativa. Fazia vários testes de gravidez, mas todos davam negativo.” O sofrimento, muitas vezes, era silencioso. “Era o psicológico, o desejo tão grande de ser mãe que me fazia acreditar.”

Situações do dia a dia também mexiam profundamente com ela. “Ver mulheres grávidas tocava muito meu coração. Eu fazia carinho na barriga delas… era algo muito forte.”

Mesmo assim, Claudete nunca deixou espaço para sentimentos negativos. “Eu nunca senti inveja. Pelo contrário, eu me alegrava pelas outras mães.”

O apoio da família e a maternidade vivida de outras formas

Durante esses anos, Claudete encontrou formas de viver, ainda que parcialmente, o cuidado materno. A família teve papel fundamental nesse processo.

“Minha irmã Ivete, meu cunhado Mauro, meu irmão André e a Ilisandra sempre confiaram em mim para cuidar dos filhos deles”, conta. Ela ajudou a criar os sobrinhos Fábio e Andreia, o que, de certa forma, amenizava a ausência de um filho próprio.

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Sobrinhos Fábio e Andreia
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Afilhado Henrique

“Isso acalmava um pouco aquele vazio dentro de mim”, admite.

Mais do que isso, a rede de apoio familiar e de amigos foi essencial para que ela se mantivesse firme. “Eu sempre tive pessoas ao meu lado, e isso me dava força.”

A fé como alicerce para não desistir

Se há um elemento constante na história de Claudete, esse elemento é a fé. Foi ela que sustentou a esperança nos momentos mais difíceis.

“Eu nunca pensei em desistir. Dentro de mim sempre existiu uma certeza muito forte de que eu seria mãe”, afirma. Houve um momento, porém, em que ela decidiu entregar completamente seu sonho a Deus.

“Eu acalmei o meu coração e entreguei tudo nas mãos de Deus.” Uma frase ouvida de outra pessoa se tornou um marco. “Me disseram que Deus estava preparando algo tão maravilhoso que eu nem ia acreditar quando chegasse.”

A partir dali, Claudete passou a viver com mais serenidade. “Eu conversava com Deus, perguntava o que Ele estava preparando… e isso me trazia paz.”

A decisão pela adoção

Depois de anos tentando engravidar e buscar alternativas, Claudete e o companheiro decidiram trilhar um novo caminho: a adoção.

A decisão veio após tentativas pelo sistema público de saúde, sem resultados concretos. “Havia muita incerteza, e aquela seria a única possibilidade”, explica.

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Viagem a Florianópolis representou a busca por uma resposta e por uma nova chance,

Foi então que ela tomou a iniciativa. “Eu disse: ‘vamos dar o nosso nome para adotar uma criança’.” Embora o companheiro sempre estivesse ao seu lado, Claudete reconhece que foi ela quem deu o primeiro passo.

A escolha, apesar de rápida, já estava amadurecida. “Foi uma decisão imediata, porque dentro de nós esse desejo já estava pronto.”

Um processo exigente e uma espera ainda maior

O processo de habilitação para adoção trouxe novos desafios. Avaliações psicológicas, sociais e estruturais fizeram parte da caminhada.

“No início, optamos por um bebê de até seis meses”, conta. Com o tempo, o casal ampliou as possibilidades. “Passamos para até dois anos, depois até cinco. Também estávamos abertos para irmãos ou gêmeos.”

Mais do que características físicas, o que importava era o amor que poderiam oferecer. “Não tínhamos exigência de cor, mas no meu coração sempre existiu um amor muito grande pela cor parda.”

Ainda assim, a maior dificuldade foi a espera. “Foram cinco anos no processo de adoção, que se somavam aos 17 anos de luta.”

O dia em que o sonho começou a se tornar realidade

Depois de tanto tempo, o tão esperado momento finalmente chegou. Claudete lembra com detalhes do dia em que recebeu a notícia.

“Foi uma felicidade grande, mas também uma tranquilidade que não sei explicar… parecia que meu coração já sabia.” Ela estava ao lado de sua ex-patroa quando recebeu a ligação.

“Quando me pediram para retornar, algo dentro de mim dizia: ‘é agora… é o meu filho’.”

Curiosamente, a emoção não veio em forma de lágrimas. “Eu não consegui nem chorar. Fiquei meio paralisada, mas com uma certeza muito forte de que era real.”

O primeiro encontro: quando o coração reconhece

O encontro com Andrey foi um dos momentos mais marcantes de sua vida. Ele tinha um ano e um mês quando Claudete o viu pela primeira vez.

“Quando cheguei, já peguei ele no colo. Foi algo muito natural”, conta. A reação do menino foi imediata. “Quando eu disse ‘vem no colo’, ele simplesmente se jogou nos meus braços.”

Para Claudete, aquele instante foi a confirmação de tudo. “Sabe quando você espera tanto por algo, que quando acontece você só vive o momento? Foi assim.”

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Emoção ao pegar o filho no colo pela primeira vez

Claudete também faz questão de lembrar de pessoas especiais que estiveram ao seu lado em um dos momentos mais marcantes de sua vida. No dia em que foi buscar o filho, a família passou por Blumenau, onde contou com o apoio do padrinho e da madrinha do menino, Onésio e Leocádia. A filha do casal, Andressa, também acompanhou esse momento tão esperado. “Eles foram muito importantes para nós nesse dia. São pessoas especiais que fizeram parte da chegada do nosso filho”, recorda.

Os primeiros dias e a construção do vínculo

A chegada em casa trouxe alegria, mas também desafios. A adaptação exigiu paciência e dedicação.

“Tinha brinquedo espalhado por todo lado, eu quase não conseguia fazer meu serviço… mas era a realização de um sonho”, relembra. Questões de saúde também exigiram atenção.

“Ele tinha problemas intestinais e bronquite asmática”, conta. Com cuidado e amor, as dificuldades foram sendo superadas.

O vínculo entre mãe e filho se fortaleceu rapidamente. “No começo ele testava um pouco, mas logo percebeu o amor que existia. E foi assim que ele aprendeu que onde tem amor, se constrói uma família.”

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Crescimento, aprendizado e orgulho

Hoje, Andrey é um jovem de 17 anos, responsável e trabalhador. Começou cedo como aprendiz e segue construindo seu caminho.

“Tenho muito orgulho dele”, afirma Claudete. “Ele me ajuda em casa, cuida do pátio. Eu acredito que nós somos espelho para nossos filhos.”

A maternidade trouxe mudanças profundas em sua vida. “Mudou tudo. Eu passei a sentir o verdadeiro amor por um filho.”

Preconceito, verdade e amor

Ao longo da trajetória, Claudete também precisou lidar com comentários preconceituosos sobre adoção.

“Muitas pessoas ainda pensam que um filho adotivo não vai ser como um biológico”, diz. Sua resposta, porém, sempre foi firme. “A educação quem dá somos nós. Um filho será aquilo que você ensina.”

Desde o início, Andrey sempre soube de sua história. “Eu nunca escondi nada. Para ele, é algo normal.”

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Claudete, pais e filho Andrey

O verdadeiro significado do Dia das Mães

Para Claudete, o Dia das Mães tem um significado profundo. “É o dia que me lembra que Deus realiza sonhos.”

O primeiro, celebrado logo após a adoção, foi inesquecível. “Fizemos uma comemoração com a família, foi muito especial.”

Hoje, a data é carregada de emoção e gratidão.

Ao olhar para trás, Claudete tem certeza de que tudo valeu a pena. “Se eu pudesse voltar no tempo, diria que aqueles 17 anos tinham um propósito.”

Para outras mulheres, deixa um conselho cheio de esperança. “Não percam a fé. E se não puderem gerar, não desistam. A adoção é um caminho lindo.”

Ser mãe: um amor que nasce no coração

No fim, sua história revela uma verdade simples e poderosa. “Ser mãe é o presente mais lindo que Deus me deu.”

Mais do que biologia, a maternidade é construída no amor, no cuidado e na presença. Claudete resume sua trajetória com emoção:

“Minha ‘gravidez’ durou 17 anos… e Deus conhecia o amor que existia dentro de mim.”

Neste Dia das Mães, sua história é um lembrete de que o amor não tem forma única, e que, quando ele é verdadeiro, sempre encontra um caminho para nascer.

Matéria publicada na edição 1037 de 7 de maio de 2026.

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