Em uma época em que conciliar agendas virou desafio, Laurício, Vilson, Sérgio, Francisco, Áurea e Clarice Nicodem encontraram um motivo para interromper a rotina pelo menos uma vez ao ano. Há três anos, eles transformaram a produção artesanal de melado em um compromisso que rende muito mais do que potes cheios. O fogo já está aceso quando o primeiro feixe de cana chega à moenda. O chimarrão circula entre as mãos. Alguém conta uma história que todos já ouviram dezenas de vezes e, ainda assim, provoca gargalhadas. É assim na propriedade dos Nicodem, na Linha Pitangueira, interior de Tunápolis, quando a família se reúne para fazer melado.
Tudo começou com uma sugestão de Áurea. Ao perceber a quantidade de cana-de-açúcar disponível em sua propriedade, lançou uma pergunta aos irmãos: por que continuar comprando melado se poderiam produzir o próprio? A resposta veio em forma de trabalho coletivo.
Desde então, cada um contribui à sua maneira. Laurício leva o trator e a moenda. Clarice preserva um dos símbolos do dia: o antigo tacho onde a garapa ganha consistência. Os demais assumem as tarefas conforme o ritmo da produção. Uns alimentam a moenda, outros coam o caldo. Ao redor do fogo, as mulheres retiram a espuma e acompanham, com paciência, o ponto certo do cozimento. Não há divisão de cargos, apenas disposição para fazer juntos.
Foi assim no último sábado, 4 de julho. A movimentação começou às 7 horas da manhã e só terminou no fim da tarde. Foram produzidos cinco tachos. Neste ano, a cana veio da propriedade de uma família amiga, que receberá parte da produção como forma de agradecimento, ampliando o espírito de partilha que marca o dia.
Mas basta olhar além do tacho para perceber que o protagonista nunca foi o melado. Entre uma mexida e outra surgem apelidos antigos, contação de histórias e brincadeiras que atravessam gerações. Na mesa aparecem café passado na hora, bolachas caseiras, torresmo, cuca e outras receitas levadas por cada participante.


A união, porém, não se limita a safra da cana-de-açúcar. Depois da morte da mãe, Síria Nicodem, os filhos decidiram transformar a saudade em presença. Todo dia 23, data que lembra o falecimento da matriarca, eles se reúnem na casa de um deles para rezar uma dezena do terço. Em seguida, compartilham o jantar, conversam sobre a vida e renovam um hábito que ela cultivou durante toda a vida: manter os filhos próximos.
No fim da tarde, assim que o trabalho acaba, cada um leva alguns potes de melado para casa. É a parte que pode ser dividida. A outra ninguém consegue colocar em um recipiente: o tempo vivido em volta do fogo, as memórias renovadas e a certeza de que a maior herança deixada por dona Síria continua intacta: reunir a família — mesmo sem estar presente.

