Itapiranguenses encaram aventura de 11,5 mil quilômetros de moto
O ronco da moto cortando o silêncio da madrugada parecia anunciar muito mais do que uma simples viagem. Dentro dos bagageiros apertados, roupas térmicas, ferramentas, mantimentos e sonhos. No coração, coragem suficiente para encarar quase 11,5 mil quilômetros de estrada, frio extremo, vento patagônico e o desconhecido.
Foi assim que Joicieli Rohr e Jurandir Reckziegel transformaram uma vontade antiga em realidade: sair do extremo Oeste catarinense até Ushuaia, na Argentina, conhecida mundialmente como a cidade do “fim do mundo”.
Durante 22 dias, o casal viveu uma experiência intensa, cruzando paisagens cinematográficas, encarando temperaturas congelantes e colecionando histórias que dificilmente serão esquecidas. Mais do que uma viagem de moto, foi uma jornada de superação, companheirismo e realização pessoal.
Um sonho que encontrou companhia
A ideia da viagem não surgiu da noite para o dia. Para Jurandir, Ushuaia já fazia parte dos sonhos há muito tempo.
“Eu sempre dizia que queria ir até Ushuaia com meu xodó, a CG 125 ano 1981, com a qual já percorri muitos quilômetros pelas estradas do Brasil”, relembra.
Já Joicieli também carregava dentro de si o desejo de explorar o mundo sobre duas rodas. Argentina, Chile ou Bolívia estavam entre os destinos imaginados por ela há anos. O destino tratou de unir os dois caminhos.
“Há pouco mais de um ano acabamos nos conhecendo e compartilhando uma vida a dois. Com o passar do tempo, as ideias de viajar começaram a combinar também”, contam.
Entre conversas, planos e sonhos compartilhados, nasceu o roteiro que levaria o casal até um dos destinos mais desejados pelos amantes do motociclismo.

O chamado do “fim do mundo”
Para quem vive o universo das motos, Ushuaia representa quase um símbolo de conquista. Não é apenas um destino turístico. É um desafio. Um sonho. Um marco.
“Acreditamos que chegar ao ‘fim do mundo’ seja o sonho de grande parte dos amantes do motociclismo”, explicam.
Inicialmente, o casal cogitava seguir rumo ao Norte e Nordeste brasileiro. Mas a vontade de cruzar fronteiras falou mais alto. Aos poucos, o roteiro começou a ganhar forma: Cordilheira dos Andes, Carretera Austral, Patagônia Argentina e, claro, Ushuaia fechando a aventura “com chave de ouro”.
A decisão final veio quando perceberam que talvez nunca existisse um momento “perfeito”. “Talvez não fosse a hora certa, mas era a oportunidade que tínhamos”, afirma Jurandir.
Mesmo sabendo que o ideal seria viajar no verão, quando as temperaturas são mais amenas, eles decidiram partir em abril, já em pleno outono. O motivo? Trabalho, férias e a certeza de que adiar poderia significar nunca realizar.
“Se deixássemos para outra oportunidade, talvez algum dos fatores necessários — saúde, tempo, dinheiro ou disposição — pudesse frustrar nossos planos”, comenta Joicieli.
Planejamento: tão importante quanto acelerar
Antes de ligar a moto e cair na estrada, houve meses de preparação. Documentação pessoal e da motocicleta precisavam estar em dia. Licenciamentos, seguros e burocracias internacionais exigiram atenção.
Conversar com pessoas que já haviam feito viagens semelhantes também foi essencial.
“Pegamos muitas dicas sobre trajeto, clima, custos e equipamentos.”
Mas talvez o maior desafio antes da partida tenha sido outro: fazer tudo caber na moto.
“Como o espaço era limitado e seriam muitos dias de estrada, tivemos que escolher apenas o essencial.”
Cada item precisava justificar seu espaço dentro dos bagageiros. Casacos térmicos, roupas impermeáveis, ferramentas, remédios, equipamentos de segurança, comida e itens básicos para enfrentar longos trechos sem estrutura.
A companheira da viagem foi uma Africa Twin 1000, ano 2017, preparada especialmente para enfrentar as exigências da rota.
Antes da partida, a moto passou por uma revisão completa. Pneus novos foram instalados e adaptações foram feitas para garantir mais autonomia.
“Foram colocados suportes laterais junto ao protetor de carenagem, um para galão de combustível e outro para galão de água.”
A preocupação fazia sentido. Em muitos trechos da Patagônia, postos de combustível ficam extremamente distantes uns dos outros.
Quando a estrada decide o caminho
Embora tivessem um planejamento relativamente definido, a estrada mostrou rapidamente que nem tudo sairia exatamente como previsto.
“Tínhamos ideia de quantos quilômetros rodar por dia e onde dormiríamos, mas fomos adaptando conforme o clima e o cansaço.”
Em alguns dias, conseguiam avançar além do planejado. Em outros, o frio intenso, a chuva ou o vento obrigavam a parar mais cedo.
Essa flexibilidade acabou sendo fundamental para tornar a viagem mais segura e agradável.
Cordilheira, lagos azuis e paisagens incríveis
Ao longo dos 11,5 mil quilômetros percorridos, o casal cruzou alguns dos cenários mais impressionantes da América do Sul.
A travessia pela Cordilheira dos Andes foi um dos momentos mais marcantes.
“Ver os picos nevados e aquelas estradas atravessando as montanhas foi algo indescritível”, destaca Joicieli.
Mas um dos episódios mais divertidos aconteceu em Puerto Río Tranquilo, no Chile, durante o passeio de barco pelas Capillas e Catedral de Mármol.
“Mesmo nos molhando e chegando a bater o queijo de tanto frio, foi um dos momentos mais divertidos da viagem.”
As famosas formações de mármore esculpidas pela água impressionaram o casal, assim como as cores dos lagos e rios da região.
“Sabe aquelas fotos de lagos azul-turquesa que parecem editadas? Pois acredite: as cores são reais.” Segundo eles, era impossível não parar constantemente para fotografar e contemplar a paisagem.

O frio: o maior adversário
Se existe algo que realmente testou os limites físicos e emocionais da dupla, foi o frio da Patagônia. “Com certeza, o maior desafio foi o frio”, enaltece Jurandir.
Mesmo preparados com segunda pele térmica, meias grossas, luvas, cachecóis e roupas especiais, enfrentar o vento gelado durante horas sobre a moto exigia resistência.
“O que para nós é auge do inverno, para o povo de Ushuaia ainda é considerado agradável.”
A diferença cultural chamou atenção. Enquanto turistas caminhavam extremamente agasalhados, moradores locais apareciam até de bermuda pelas ruas.

Um susto na Ruta 40
Nem tudo foram paisagens bonitas e momentos leves. Em determinado trecho da famosa Ruta 40, o casal viveu um grande susto.
A estrada alternava trechos asfaltados e de rípio — estradas de chão com pedras soltas — muitas vezes sem sinalização adequada.
“Paramos para dar uma esticada no corpo perto de um trecho de rípio quando uma motorista entrou rápido demais na estrada.”
O carro perdeu o controle, derrapou e saiu da pista.
“Graças a Deus derrapou para o lado contrário ao nosso. Mas mesmo assim foi um grande susto.” O episódio serviu como alerta. “Em estrada de rípio, todo cuidado é pouco”, enaltece Jurandir.
Mecânica improvisada no meio da estrada
Apesar da longa distância percorrida, a moto apresentou apenas um problema mecânico: um vazamento de óleo no retentor da suspensão dianteira.
Inicialmente, o casal acreditou que precisaria fazer a substituição da peça, o que teria custo elevado fora do Brasil. Mas a solução acabou vindo de forma simples e improvisada.
“Descobrimos que poderia ser apenas sujeira causada pela poeira e areia da estrada.”
Com ajuda de vídeos na internet e usando apenas uma chave de fenda, um pano limpo e um pedaço de garrafa pet, conseguiram fazer a limpeza do local. “Depois disso seguimos viagem normalmente.”
Emoção, inspiração e homenagem
Entre tantos momentos marcantes, houve também espaço para emoção e reflexão.
Durante o trecho percorrido pela Carretera Austral, eles fizeram uma parada especial no monumento em homenagem a Alex Tibola e sua tia Liane, vítimas de um acidente na região.
Alex, conhecido como “Murat”, ganhou notoriedade ao viajar por mais de 80 países pilotando uma Honda Pop, tornando-se inspiração para milhares de motociclistas brasileiros.
“Paramos para prestar nosso respeito e sentimentos.”
O momento teve significado especial por representar também a paixão pela estrada e pela liberdade sobre duas rodas.
“Chegamos. Nós conseguimos.”
Depois de milhares de quilômetros, frio intenso, vento e cansaço acumulado, finalmente surgiu a placa mais esperada: Ushuaia. “A ansiedade começou a bater quando nos aproximamos da cidade.” Chegar ao famoso portal da cidade foi a concretização de algo muito maior do que uma viagem. “Foi olhar nos olhos um do outro e dizer: ‘Chegamos. Nós conseguimos’”, comenta Jurandir.
O sentimento, segundo eles, era de realização. “É possível, mesmo morando no interior de uma cidade pequena, realizar a viagem dos sonhos.”

Cultura, economia e diferenças pelo caminho
A experiência também trouxe descobertas culturais.
Na Argentina, o casal experimentou comidas típicas como empanadas, medialunas, milanesas e purês. Mas os preços assustaram.
“Achávamos que nosso dinheiro não valia nada no Brasil, mas descobrimos que na Argentina vale menos ainda”, brincam.
Ainda assim, a visão sobre gastos mudou durante a aventura. “Viagem nunca é gasto. É investimento para a vida.”
Outro detalhe curioso foi a abordagem policial. Em duas manhãs diferentes, por volta das 8h, eles foram parados apenas para realizar teste do bafômetro. “Foi algo diferente para nós.”
O que nunca pode faltar numa viagem assim?
Depois da experiência, eles garantem que alguns itens são indispensáveis: água, comida e combustível reserva, estão no topo da lista.
“Pode acontecer de um posto não ter gasolina ou o próximo ficar muito distante. Melhor estar prevenido.”
Além disso, roupas adequadas para o frio fazem toda a diferença.
Ao serem questionados sobre o que pesa mais numa aventura desse porte, a resposta vem quase imediata.
“O planejamento é importante, mas se a pessoa não tiver coragem de colocar o pé na estrada, tudo continuará sendo apenas sonho.”
Para eles, sair da zona de conforto foi essencial. “Ter coragem de se aventurar é o mais importante.”
E a próxima aventura?
Mesmo recém-chegados, a vontade de voltar à estrada já existe. A Carretera Austral, especialmente, deixou saudades. “Fizemos apenas um pedacinho dela e nos encantamos. Se um dia pudermos viajar novamente, queremos fazer ela inteira.”
E no fim, depois de 22 dias de estrada, frio intenso, quilômetros intermináveis, paisagens de tirar o fôlego e histórias para uma vida inteira, Joicieli Rohr e Jurandir Reckziegel voltaram para casa diferentes de quando partiram. Trouxeram na bagagem muito mais do que fotos e lembranças: trouxeram a certeza de que sonhos não pertencem apenas aos grandes centros ou às pessoas que parecem ter tudo ao alcance. Às vezes, eles começam em uma pequena comunidade do interior, ganham força entre conversas simples, aceleram sobre duas rodas e encontram no horizonte a prova de que coragem e vontade podem levar alguém muito mais longe do que imaginava.
Matéria completa com fotos na edição impressa de 14 de maio de 2026!


