Itapiranguense vive a experiência da residência médica nos Estados Unidos, referência mundial em medicina

Sair da própria terra, enfrentar desafios, adaptar-se a uma nova realidade e seguir firme na construção de um sonho. Histórias assim mostram que, muitas vezes, a coragem anda lado a lado com a persistência. Vencer barreiras, manter o foco e acreditar que objetivos distantes podem ser alcançados exige dedicação e, também, confiança no caminho escolhido.

Foi assim, passo a passo, entre dificuldades, estudos intensos e muitos recomeços, que o itapiranguense Gabriel Lenz, 30 anos, construiu a caminhada que hoje o leva a viver em Orlando, na Flórida, onde realiza residência médica e segue em busca de um objetivo alimentado desde a infância: atuar na oncologia.

Uma infância simples e um sonho improvável

Embora seja natural de Sapiranga (RS), Gabriel considera Itapiranga parte essencial da própria história. Aos oito anos de idade mudou-se com a família para Linha Soledade, terra natal dos pais, José Lenz e Jacinta Reis Lenz.

A mudança aconteceu depois da aposentadoria do pai, que trabalhava como pedreiro em Sapiranga, enquanto a mãe atuava como doméstica. Em Itapiranga, a família encontrou um novo começo.

Gabriel estudou os primeiros anos em Linha Soledade, seguindo depois para Linha Popi, onde permaneceu até o segundo ano do Ensino Médio. A conclusão dos estudos aconteceu no SAFA, em Itapiranga.

Desde cedo, os pais reforçaram algo que mais tarde faria diferença em sua trajetória: a importância dos estudos. “Meus pais sempre me incentivaram muito. Mesmo eles tendo pouca oportunidade de estudo, sempre acreditaram que a educação poderia abrir portas”, relembra.

Aos 14 anos, começou a trabalhar como cinegrafista e editor de vídeo no contraturno escolar, atividade que exerceu até os 17 anos. Era uma forma de ganhar experiência, responsabilidade e ajudar a construir o próprio caminho.

Mas havia algo ainda maior ocupando seus pensamentos. Segundo Gabriel, a medicina surgiu cedo, muito cedo. “Meus pais contam que eu tinha por volta de quatro anos quando falei pela primeira vez que queria curar o câncer. De alguma forma, aquilo ficou dentro de mim e nunca saiu”, conta.

Sem médicos na família e vindo de uma realidade simples, o sonho parecia distante. Os pais haviam estudado apenas até a quarta série do primário e ele seria o primeiro entre os irmãos a ingressar em uma universidade.                        Mesmo assim, desistir nunca foi opção.

O ano decisivo

Quando concluiu o Ensino Médio, Gabriel sabia que a caminhada exigiria esforço. Medicina parecia algo reservado a pessoas de outra realidade financeira.

O pai, que via no filho facilidade para falar em público e gosto pela comunicação, chegou a imaginar que ele pudesse seguir no Jornalismo. Porém, percebeu que a vontade pela medicina era genuína.

Sem condições de pagar uma faculdade particular, Gabriel reuniu coragem para propor algo aos pais: investir em um cursinho preparatório e tentar aprovação por meio de bolsa ou do ENEM.

“Meu pai me disse que conseguiria pagar apenas um ano de cursinho. Eu sabia que muita gente levava três anos para passar. Então encarei aquilo como a minha única chance.”

Na época, mudou-se para Santa Cruz do Sul, onde viveu com padrinhos enquanto se preparava para vestibulares e para o ENEM. Ele lembra daquele período como um dos mais difíceis — e também dos mais importantes.

Sem precisar trabalhar, mergulhou nos estudos de maneira intensa. “Eu estudava literalmente o dia inteiro. Parava só para comer e dormir”, recorda.

Mas quando tudo parecia encaminhado, surgiu um obstáculo inesperado. Na semana anterior ao ENEM, Gabriel teve apendicite e precisou passar por cirurgia.

Mesmo com dores e ainda em recuperação, decidiu fazer a prova. “Passei a semana com muita dor, mas não pensei em desistir.” O esforço valeu a pena.

Apesar das dificuldades, conquistou bolsa integral para cursar medicina na PUCRS, em Porto Alegre, considerada uma das principais escolas médicas privadas do país.

Em um novo mundo, sem atalhos

O ingresso na universidade trouxe outro choque de realidade. Na turma de aproximadamente 80 estudantes, muitos eram filhos de médicos ou haviam estudado em instituições particulares renomadas.

Gabriel vinha de um contexto completamente diferente. Ainda assim, escolheu não se intimidar. “Nunca baixei a cabeça. Sempre tentei me destacar e mostrar para mim mesmo que também era capaz.”

Nos primeiros anos da graduação, voltou a contar com apoio familiar, morando com padrinhos em Porto Alegre. “Sem eles, provavelmente muita coisa teria sido diferente. Considero meus padrinhos como pais.”

Na faculdade, encontrou um novo interesse dentro da medicina: a oncologia. Desde cedo começou a participar de pesquisas acadêmicas e teve trabalhos apresentados em congressos nacionais e internacionais.

Foi justamente o desempenho acadêmico que acabaria abrindo uma das portas mais importantes da sua trajetória.

Uma experiência que ampliou caminhos

Durante a graduação, apenas um estudante era selecionado para passar três meses em Miami, nos Estados Unidos, participando de estágio vinculado ao internato médico. Gabriel conquistou a oportunidade após receber o prêmio de excelência acadêmica.

A experiência marcou uma virada. Foi o primeiro contato direto com hospitais americanos, tecnologia de ponta e profissionais que se tornariam mentores.

“Quando voltei, minha cabeça já era outra. Vi o que existia de mais avançado na medicina e comecei a pensar que talvez fosse possível construir minha carreira lá.” O sonho de especializar-se nos Estados Unidos ganhou força. Mas o destino ainda reservava mudanças inesperadas.

0 Gabriel e pais no dia da formatura em medicina
Gabriel e pais no dia da formatura em medicina

A pandemia e o retorno para casa

Em 2020, ano previsto para sua formatura, a pandemia alterou planos no mundo inteiro. Gabriel retornou para Itapiranga em fevereiro daquele ano, acreditando que ainda teria vários meses até concluir o curso.

O cenário mudou rapidamente. Formou-se antes do previsto e precisou reorganizar objetivos. O plano americano teve de ser adiado.

Vieram então anos intensos de trabalho na região. Atuou inicialmente na unidade básica de saúde de São João do Oeste, passou como médico plantonista em hospitais da região e permaneceu quatro anos no Hospital Regional Terezinha Gaio Basso, em São Miguel do Oeste, sendo os dois últimos como chefe do pronto-socorro.

Foi um período de amadurecimento profissional e pessoal. Ao mesmo tempo, porém, o sonho permanecia vivo.

Uma parceria para atravessar fronteiras

Em 2021, Gabriel conheceu quem hoje é sua esposa, Tayna Zappani. Desde o início, Tayna sabia da vontade do marido de tentar residência médica nos Estados Unidos. Mesmo nunca tendo vivido fora do país nem morado em outra cidade além de São Miguel do Oeste, abraçou o projeto. “Ela me apoiou desde o primeiro minuto. Devo muito a ela.”

A jornada, no entanto, estava longe de ser simples. Enquanto trabalhava, Gabriel também estudava para um processo seletivo considerado extremamente difícil.

Para ingressar na residência médica americana precisou enfrentar provas teóricas extensas, exames de proficiência e entrevistas. As avaliações, realizadas em inglês, exigiam preparação intensa. Uma delas durou sete horas; outra, oito.

“Existe apenas uma chance para fazer uma boa nota. Era algo que exigia muita preparação”, comenta.

O resultado veio exatamente como havia planejado: aprovação de primeira nas duas etapas.

Com notas, currículo acadêmico e trajetória profissional avaliados, foi chamado para entrevistas em seis hospitais e universidades americanas. Junto com a esposa, criou uma espécie de ranking levando em conta ensino, localização e qualidade de vida. A escolha final foi Orlando.

Gabriel foi selecionado para a residência médica no AdventHealth, um dos maiores hospitais dos Estados Unidos. Em junho de 2025, iniciou oficialmente a nova etapa.

Medicina sem fronteiras

Hoje, Gabriel vive uma rotina intensa em Orlando. A residência começou pela medicina interna, etapa obrigatória antes da especialização em oncologia — área que segue sendo seu principal sonho.

Serão três anos de medicina interna e outros três voltados à oncologia. O ambiente hospitalar impressiona pela diversidade. Na turma atual, há médicos do Paquistão, Nepal, Irã, Taiwan, Brasil e Estados Unidos. “É um ambiente muito multicultural. Isso nos faz crescer muito.”

Segundo ele, cerca de 30% das vagas médicas americanas são preenchidas por estrangeiros. Ainda assim, entrar no sistema continua sendo extremamente competitivo.

Para se ter ideia, estima-se que apenas cerca de 120 médicos brasileiros ingressem anualmente em programas de residência nos Estados Unidos, número pequeno diante dos milhares de formandos do Brasil.

2 Primeiro dia da residência e a emoção de receber o jaleco que marca o início de uma nova etapa
Primeiro dia da residência e a emoção de receber o jaleco que marca o início de uma nova etapa

O choque cultural e as diferenças da medicina

Entre as maiores mudanças enfrentadas está a adaptação cultural. Gabriel e a esposa reconhecem que sentiram impacto ao deixar o Brasil.

“O povo americano é mais frio. Sentimos muita falta do calor humano, da família, dos amigos e da convivência brasileira.”

O idioma também representou uma barreira inicial. Apesar de estudar inglês desde a adolescência, a fluência exigida no ambiente hospitalar trouxe desafios.

“Linguagem sempre foi uma dificuldade para mim. No começo sofri bastante, mas depois de alguns meses comecei a vencer essa barreira.”

No campo profissional, as diferenças também chamam atenção. Segundo ele, a medicina americana é muito mais investigativa e baseada em exames.

Enquanto no Brasil muitos diagnósticos são construídos principalmente a partir da conversa clínica e do exame físico, nos Estados Unidos exames laboratoriais e de imagem costumam ser amplamente utilizados. “Foi um choque grande para mim entender isso. Existem lados positivos e negativos.”

Ao contrário do imaginário popular, Gabriel explica que os Estados Unidos também possuem sistemas públicos de assistência em saúde, embora estruturados de maneira diferente.

Além disso, destaca a força da pesquisa médica no país. “Tudo o que começa na saúde geralmente começa aqui. A pesquisa de ponta está nos Estados Unidos.”

4 Turma da residência reunida com o diretor do programa, em um grupo formado por médicos de diferentes países.
Turma da residência reunida com o diretor do programa, em um grupo formado por médicos de diferentes países.

O preço da distância e o valor das conquistas

Apesar das oportunidades, morar em outro país não é fácil. A distância da família pesa. Os amigos, os costumes, o jeito brasileiro e até a alimentação fazem falta. “Posso garantir: a melhor comida continua sendo a brasileira”, brinca.

Ainda assim, o médico reconhece aspectos positivos na nova vida. Segurança, valorização profissional, acesso à saúde, educação e qualidade de vida são fatores frequentemente lembrados.

Por enquanto, os planos são permanecer nos Estados Unidos. Mas Gabriel evita certezas absolutas. “Hoje nossa escolha é ficar aqui, mas a vida muda. Não posso dizer que isso nunca vai mudar.”

Ao olhar para trás, ele afirma sentir orgulho da caminhada construída. “O que mais me orgulha é nunca ter desistido. A vida é feita de desafios e sonhos. Toda luta vale a pena.”

Sonhar grande, persistir ainda mais

Da criança que dizia querer curar o câncer ao médico que hoje se prepara para atuar em uma das áreas mais avançadas da medicina mundial, Gabriel carrega consigo a certeza de que persistência faz diferença.

A distância entre Linha Soledade e Orlando pode parecer enorme no mapa, mas sua história mostra que alguns caminhos começam muito antes do embarque: começam quando alguém decide acreditar.

E, há uma mensagem que ele faz questão de deixar para os jovens, simples e direta: “Não desistam. Eu sou prova viva de que um sonho pode se tornar realidade. Nada é impossível.”

Clearwater na Flórida

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