Memórias Vivas: Egídio e Lúcia Stein

Uma história de inspiração

A trajetória de vida de Egídio e Lúcia Stein é um exemplo inspirador de amor, trabalho, perseverança e dedicação à família. Desde a infância, ambos aprenderam o valor do esforço, da honestidade e da responsabilidade, princípios que carregaram consigo ao longo de toda a vida. Cresceram em uma época marcada por desafios e limitações, quando muitas conquistas só eram alcançadas por meio do trabalho árduo e da determinação. Desde cedo, conheceram as dificuldades da vida no campo, as exigências do trabalho diário e os sacrifícios necessários para construir um futuro melhor.

Ao unirem suas vidas, iniciaram uma caminhada repleta de sonhos, mas também de obstáculos. Com coragem e fé, enfrentaram as adversidades que surgiram ao longo dos anos, sempre apoiando um ao outro e encontrando na união familiar a força para seguir em frente. Cada desafio superado fortaleceu ainda mais os laços que construíram.

Por meio de muito trabalho, dedicação e espírito de sacrifício, Egídio e Lúcia constituíram sua família, baseada nos valores do respeito, da honestidade, da simplicidade e do amor. As conquistas alcançadas não vieram facilmente, mas foram fruto de incontáveis dias de esforço, renúncias e de persistência.

Hoje, sua história é motivo de orgulho para filhos, netos e bisnetos. O legado que deixam vai muito além dos bens materiais, está presente nos ensinamentos, nos exemplos de caráter, na união da família e na demonstração de que os sonhos podem ser realizados quando acompanhados de trabalho, perseverança e fé. Que sua história continue inspirando as futuras gerações, preservando os valores que sempre nortearam sua vida e sua família.

As origens no Rio Grande

Muitas famílias gaúchas deixaram a sua terra natal em busca de novas oportunidades econômicas e de terras para cultivo agrícola. Grande parte desses migrantes era formada por descendentes de imigrantes europeus, que haviam se estabelecido nas regiões coloniais do Rio Grande do Sul.

Com o crescimento populacional e a divisão das propriedades rurais entre os herdeiros, muitas famílias passaram a enfrentar a escassez de terras e a diminuição da rentabilidade agrícola. Diante desse cenário, iniciou-se um intenso processo de migração para outras regiões do país. Os estados de Santa Catarina e Paraná foram os primeiros destinos. Esses migrantes levaram consigo conhecimentos agrícolas, práticas comunitárias, tradições culturais e religiosas, contribuindo significativamente para o desenvolvimento econômico e social das regiões de destino. A agricultura familiar, a criação de cooperativas, as festas típicas, a culinária e o fortalecimento das comunidades locais refletem a influência da cultura trazida pelos gaúchos e seus descendentes. Na mala desses migrantes estavam poucos pertences materiais, mas no imaginário o sonho de uma terra próspera e produtiva que pudesse garantir a prosperidade da família.

Assim foi com as famílias Stein e Birck, que migraram do Rio Grande para Porto Novo em busca de sonhos e de novas oportunidades de vida. A nova colônia representou a oportunidade de construir um futuro próspero, onde a fartura de terras férteis pudesse oferecer um destino para a família e para seus descendentes.

Egídio Aloísio Stein nasceu no ano de 1945, filho de Bertoldo João Stein e Maria Stein. Naturais de Linha Cumprida, interior de Salvador do Sul, a família Stein decidiu migrar para Porto Novo no ano de 1960, motivados por familiares que ali já haviam se estabelecido. A família passou a morar na comunidade de Linha Jaboticaba, onde trabalharam na agricultura e colaboraram para o desenvolvimento da comunidade. Lúcia nasceu no ano de 1946, filha de Emílio Reinaldo Birck e Elsa Olga Messinger. Naturais de Linha São Vendelino, então interior de Montenegro-RS, migraram São João no ano de 1949. A Vila São João havia sido fundada já no ano de 1932 e quando a família Birck chegou, a comunidade já estava bem desenvolvida, com uma nova igreja e com casas comerciais estabelecidas. Em São João os Birck tornaram-se agricultores, onde prosperaram e educaram os filhos baseados na tradição católica-cristã.

A vida em Porto Novo

            Egídio já havia estudado na escola no Rio Grande e quando chegou com a família em Jaboticaba já estava com quatorze anos de idade. Dos tempos de escola na colônia velha, Egídio lembra que o professor era muito rígido, “quando alguém pegava uma laranja no caminho para casa, onde todos caminhavam a pé, no outro dia o professor já sabia e aplicava um castigo”, dizia ele. Ao chegar em Porto Novo, Egídio já estava fora da escola (Aus die Schule), e desde jovem trabalhou na agricultura com a família. Lúcia frequentou a escola paroquial da Vila São João, onde estudou o ensino primário e ao concluir essa fase, também teve que ficar em casa para auxiliar a família nas duras tarefas agrícolas da propriedade.

            A vida na nova colônia teve muito influência da cultura religiosa e das tradições e costumes morais católicos. As famílias zelavam pela educação rígida e disciplinada, em um tempo em que a vida comunitária era um pilar das relações entre as famílias. “Na minha época de juventude somente podíamos ir três vezes por ano no baile. Os bailes eram domingo de noite, no sábado não podia ter baile, porque domingo de manhã todos deviam ir na missa. De noitezinha, depois de jogar bola no potreiro, todos já estavam arrumados e prontos para caminhar até no baile. Caminhávamos segurando o calçado nas mãos, para não estragar. Na época não tinha energia elétrica e o salão era iluminado por lamparinas. A gasosa e a cerveja era consumida morna, não tinha bebida gelada”, lembrou Egídio.

A vida adulta e o casamento

            Nos tempos de juventude, Egídio e Lúcia foram atuantes membros da Congregação Mariana, uma iniciativa coordenada pela Igreja e que visava congregar os jovens da época. Nas atividades da Congregação os jovens aprendiam lições de vida em sociedade, participavam de palestras e formações em torno dos temas comunitários, familiares e religiosos.

            Egídio e Lúcia começaram a namorar em um baile no salão da Vila São João. Todavia, conheceram-se muito antes, nos encontros de juventude e nos eventos da Congregação Mariana. Com o namoro consentido pelos pais, os dois passaram a encontrar-se nos fins de semana. Geralmente era Egídio que cavalgava de Jaboticaba até São João para namorar, mas somente nos domingos à tarde. Quando o sol começava a se pôr no alto da colina, era hora de ir para casa. Às vezes, quando chovia ao anoitecer, não era mais possível retornar. Nestas ocasiões, Egídio dormia na casa de algum vizinho dos Birck, jamais na residência da namorada.

Por fim, após um período de namoro, chegou a hora do casamento. Foram os pais de Egídio e de Lúcia que trataram dos preparativos para o matrimônio. Na época isso era muito comum, porque os pais zelavam para que seus filhos tivessem casamentos duradouros e que o novo casal pudesse ter condições de desenvolver plenamente uma nova família. Pela influência da religião católica, o casamento era um dos pilares da sociedade e das relações familiares e por isso o namoro e o noivado eram um estágio necessário e regrado. Casaram-se no ano de 1968, na igreja de Linha Jaboticaba, sendo recebidos em frente à igreja pelos membros e pela bandeira da Congregação Mariana, uma tradição da época. Todavia, como a mãe de Lúcia faleceu precocemente pouco antes do casamento, não houve festa em sinal de luto e de respeito.

Egídio e Lúcia passaram a morar na Linha Jaboticaba, em um lote colonial que ainda não havia sido explorado para a agricultura, com densa mata fechada. Os desafios foram enormes para conseguir se estabelecer naquele vale. Construíram uma modesta moradia que era compartilhada com o chiqueiro de porcos, estábulo e um pequeno aviário para frangos. Somente mais tarde que a família conseguiu uma moradia mais estruturada. No início não havia energia elétrica e também vizinhos próximos. Dos desafios, o casal lembra que na primeira colheita de milho não havia sequer uma carroça para ajudar no transporte da produção.

            Com o passar dos anos nasceram os filhos Cildo José, Eliseu Luís, Elói Inácio, Silvane Maria e Denise Maria.  A família buscou preservar os costumes herdados de seus antepassados, apesar de já serem outros tempos em que os recursos já eram mais acessíveis. Todavia, os desafios sempre foram muito presentes. Mas com humildade e alicerçados no espírito do trabalho, foi possível construir uma vida familiar próspera.

            No ano de 1973, em busca de melhores condições, a família mudou-se para a Linha Ervalzinho. Ali continuaram a atividade da agricultura, de onde tiraram o sustento para garantir boas condições para os filhos e para a manutenção da propriedade.

            Hoje, na condição de aposentados, Egídio e Lúcia vivem em São João. Curtindo as benesses da vida, mantém laços comunitários, frequentam com alegria o grupo de idosos e não deixam de praticar uma antiga tradição, o jogo do baralho, momento de amizades e de alegria com amigos.

Uma mensagem para a vida

            Hoje, após uma história de muito trabalho, de resiliência e de persistência, Egídio e Lúcia olham para o passado com orgulho, conscientes de que todas as dificuldades foram importantes para que as conquistas possam ser hoje contempladas com o sentimento de gratidão. Os netos e bisnetos, que os enchem de orgulho, são símbolos de bençãos decorrentes de uma longa vida dedicada à preservação de valores herdados de seus familiares.  

Ao olhar para o passado, reconhecem as bênçãos, aprendizados e oportunidades que fizeram parte da caminhada. Entre desafios e conquistas, alegrias e dificuldades, cada etapa da vida contribuiu para moldar quem hoje são. A vida é um presente precioso, e cada capítulo vivido merece ser recordado com gratidão, pois são as experiências, as pessoas amadas e as conquistas compartilhadas que dão verdadeiro sentido à essa história. Baseados nessa aspiração, Egídio e Lúcia ainda tem muitos planos para a vida, usufruindo na vida idosa as benesses do trabalho e da esperança cultivados ao longo da vida.

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Família Birck

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Família Stein

Por: Douglas Orestes Franzen

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