Evento realizado em Maravilha reuniu especialistas, familiares, educadores e pessoas autistas para debater inclusão, ciência, direitos e políticas públicas voltadas ao Transtorno do Espectro Autista.
Inclusão e conscientização
Uma história de criatividade, sensibilidade e inclusão marcou a abertura do 1º Seminário Regional de Autismo do Oeste de Santa Catarina, realizado em Maravilha.
Aos 15 anos, Felipe Antônio, de Pinhalzinho, encontrou nos desenhos e nas histórias em quadrinhos uma forma de expressão, comunicação e conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Portador de autismo, ele transformou sua vivência em arte e, ao lado da irmã Sofia Helena, de apenas 11 anos, deu vida a uma publicação que busca aproximar a sociedade da realidade das pessoas autistas.
A revista em quadrinhos, produzida em parceria com os ilustradores Chris Chaves e Fábio Lopes, apresenta histórias inspiradas no cotidiano da família e tem como principal objetivo promover informação, empatia e inclusão.
Para Felipe, desenhar representa “paz, união e inclusão”.
Ele conta que a inspiração surgiu após conhecer uma revista em quadrinhos e perceber que poderia criar histórias para ajudar as pessoas a compreenderem melhor o autismo.
“Essa revista é importante para as pessoas entenderem o que é o autismo. Eu gosto de desenhar de tudo, futebol, personagens, quebra-cabeças. Ver meus desenhos publicados foi emocionante, eu me arrepiei quando vi a revista pronta”, relatou.
A trajetória dos irmãos simboliza o propósito do seminário: ampliar o conhecimento sobre o TEA, combater preconceitos e fortalecer uma sociedade mais acolhedora e preparada para garantir direitos.
Conhecimento para transformar realidades
Propositor do seminário, o deputado Mauro De Nadal (MDB) destacou que o principal objetivo da iniciativa é despertar o interesse da sociedade pela causa e oferecer oportunidades de capacitação para profissionais que atuam diretamente com pessoas autistas.
Segundo ele, o conhecimento é uma ferramenta fundamental para promover inclusão e qualidade de vida.
“O impacto que buscamos é justamente despertar o interesse das pessoas pela causa autista e oferecer aos educadores, profissionais da saúde e gestores públicos a oportunidade de ampliar seus conhecimentos. Quando conhecemos melhor a realidade das pessoas autistas, conseguimos construir ambientes mais inclusivos, mais dignos e mais preparados para acolher as famílias.”
O parlamentar ressaltou ainda que levar seminários para o interior catarinense faz parte da missão da Escola do Legislativo e da Assembleia Legislativa de Santa Catarina de aproximar conhecimento e cidadania da população.
“Todo esforço que fazemos nessa caminhada tem resultado positivo porque reflete diretamente na qualidade de vida das famílias. O conhecimento gera inclusão e a inclusão gera dignidade.”
Ciência e capacitação em foco
A programação reuniu especialistas reconhecidos nacionalmente na área do autismo e da Análise do Comportamento Aplicada (ABA).
A psicóloga Adriana Rubio ministrou a palestra “Do Estigma à Estratégia: Manejo de Comportamentos Desafiadores na Escola sob a Ótica da Ciência ABA”, destacando a importância de compreender os comportamentos apresentados por pessoas autistas antes de qualquer julgamento.
Segundo ela, muitas famílias ainda enfrentam preconceitos decorrentes da falta de conhecimento.
A experiência de quem vive a realidade do autismo
Outro momento marcante do seminário foi a palestra da pedagoga e ativista Andréia Rigotti, intitulada “Meu filho tem Autismo: vinte anos de vida, dez anos de empirismo e dez anos sob a ótica da ciência”.
A apresentação trouxe reflexões sobre a evolução do conhecimento científico relacionado ao TEA e os desafios enfrentados pelas famílias ao longo dos anos.
Para Andréia, a transformação na vida das famílias acontece quando o acolhimento caminha junto com a ciência.
O olhar das famílias
Entre os participantes estava Adileide Paiva Silva, mãe de João Miguel, de cinco anos, autista. Ela destacou que um dos maiores desafios enfrentados pelas famílias ainda é o acesso a terapias e profissionais capacitados.
“As maiores necessidades das famílias são apoio, acolhimento e acesso aos serviços. Muitas mães acabam sobrecarregadas porque não encontram suporte adequado. Precisamos de mais profissionais preparados e mais políticas públicas voltadas para nossos filhos”, afirmou.
“Eu poderia ter sido incluída”
Uma das falas mais emocionantes do seminário foi da autista Roseli Claro, de 55 anos, que compartilhou sua trajetória marcada por exclusão, preconceito e superação.
Diagnosticada ainda na infância, em uma época em que pouco se falava sobre autismo, Roseli ouviu dos médicos que jamais seria alfabetizada.
A previsão, no entanto, não se confirmou. Hoje ela trabalha auxiliando adolescentes e adultos autistas na inserção no mercado de trabalho e se tornou uma voz ativa na defesa da inclusão.
Ao relembrar a infância, contou episódios que ainda carregam marcas profundas. “Disseram à minha mãe que eu jamais seria alfabetizada. Mas ela nunca desistiu de mim.”
Na escola, a falta de compreensão transformava atividades simples em momentos de sofrimento.
“As outras crianças recebiam estrelinhas e iam para o recreio. Eu ficava sentada olhando pela porta, vendo elas brincarem lá fora, sem entender por que eu não podia ir junto. Eu tentava brincar, mas era ignorada e excluída. Ninguém me ensinava como me aproximar das outras crianças. Eu só queria fazer parte.”
Apesar das barreiras, ela concluiu os estudos e construiu sua independência. Hoje, ao olhar para trás, faz uma reflexão direcionada aos educadores e profissionais presentes no seminário.
Fonte: Simone Sartori/ Agência Alesc
Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc


