Doação de órgãos
Profissionais acompanham de perto o diagnóstico de morte cerebral, orientam as famílias e fazem a ponte com a Central de Transplantes
O processo de doação de órgãos segue um protocolo rigoroso e só pode ser iniciado após a confirmação da morte encefálica. O enfermeiro Mateus Guilherme Boeno, que atua na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Regional de Chapecó e já trabalhou como líder da Comissão de Morte Cerebral de Enfermagem, explica que o diagnóstico exige uma série de avaliações.
A suspeita surge quando o paciente apresenta ausência de reflexos primitivos, como resposta à dor e movimentos respiratórios. Para que a morte encefálica seja confirmada, são realizados quatro testes: dois exames clínicos, um teste de imagem e o teste de apneia. As avaliações são feitas por três médicos diferentes, seguindo critérios estabelecidos pelo protocolo.
“Todo doador de órgãos precisa necessariamente ter um diagnóstico de morte cerebral”, destaca Mateus.
O paciente também precisa estar sem sedação ou medicamentos que possam interferir nos exames. Somente depois de concluído todo o protocolo, sem dúvidas quanto ao diagnóstico, é avaliada a possibilidade de doação.
CENTRAL ESTADUAL COORDENA A DESTINAÇÃO
Confirmada a morte encefálica, entra em cena a Central Estadual de Transplantes, em Florianópolis. É o órgão responsável por avaliar, junto às equipes médicas, as condições clínicas do potencial doador, os critérios de contraindicação e, posteriormente, fazer a compatibilização entre os órgãos disponíveis e os pacientes que aguardam transplante.
Mateus explica que a equipe do hospital não participa da definição de quem receberá os órgãos. Também não tem acesso à fila de transplantes ou, necessariamente, à informação sobre quais órgãos serão captados.
“Essa etapa é conduzida por equipes especializadas. Enquanto os profissionais da UTI ficam responsáveis pelo acompanhamento do paciente e da família, a captação é realizada por uma equipe cirúrgica específica, que pode vir de outras cidades ou estados”, afirma.
Quando uma equipe é designada, toda a logística é organizada, inclusive o deslocamento até Chapecó. Após a captação, o hospital também coordena, com a família, a entrega do corpo.
FAMÍLIA É PARTE CENTRAL DO PROCESSO
Mais do que apresentar a possibilidade de doação, uma das principais responsabilidades da equipe é garantir que os familiares compreendam o diagnóstico de morte encefálica.
Para Mateus, essa é uma das etapas mais delicadas de todo o processo. A família está diante de uma situação de luto e, muitas vezes, precisa compreender uma condição difícil de assimilar: embora o coração possa continuar batendo com auxílio dos equipamentos, a morte encefálica significa que a pessoa morreu.
“A nossa principal função é esclarecer para a família o que é a morte cerebral e dar esse diagnóstico com a maior dignidade possível”, afirma.
Somente depois de esclarecido o diagnóstico e apresentada a possibilidade de doação é que os familiares podem decidir pela autorização.
A legislação estabelece que a autorização familiar é necessária, mesmo quando a pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora. A decisão cabe aos familiares de primeiro grau, que podem autorizar ou recusar a doação.
DIZER “NÃO” TAMBÉM É UMA DECISÃO RESPEITADA
A equipe não tem como objetivo convencer a família a autorizar a doação, mas garantir que a decisão seja tomada com informação e compreensão sobre o que aconteceu.
“Se a família está esclarecida e entendeu que para eles não faz sentido, está tudo bem”, explica Mateus.
Segundo ele, uma das principais causas de negativa está justamente na dificuldade de compreender a morte encefálica. Por isso, o acompanhamento próximo e a comunicação adequada são fundamentais.
A abordagem precisa considerar a realidade de cada família, utilizando uma linguagem que permita compreender os exames, o diagnóstico e todas as etapas envolvidas. Mesmo diante de uma negativa, a decisão é respeitada.
Quando a família não autoriza a doação, após a confirmação da morte encefálica, os procedimentos seguem o protocolo médico e os equipamentos de suporte são retirados pela equipe médica. A manutenção artificial do corpo após o diagnóstico, sem indicação clínica ou legal, não é uma alternativa prevista.
MITOS AINDA SÃO UM DOS DESAFIOS
Entre as dúvidas mais frequentes estão o receio de que o paciente ainda possa estar vivo, a possibilidade de o corpo ficar marcado ou de não ser possível realizar o velório com o caixão aberto.
Mateus afirma que esses temores são esclarecidos pela equipe durante o acompanhamento. Após a captação, o corpo é preparado e a família pode realizar o velório normalmente, inclusive com o caixão aberto, sem marcas que impeçam a despedida.
Outro questionamento comum é sobre o destino dos órgãos. Nesse caso, a equipe do hospital não possui essa informação, já que a distribuição é coordenada pela Central Estadual de Transplantes.
“Os mitos são combatidos com informação adequada”, resume o enfermeiro.
Para ele, explicar de forma clara cada etapa do diagnóstico é uma das maneiras mais eficientes de evitar que informações falsas influenciem a decisão da família.
DE UM DOADOR, VÁRIAS VIDAS PODEM SER BENEFICIADAS
A quantidade de pessoas beneficiadas por um único doador varia conforme as condições clínicas e a viabilidade dos órgãos no momento da captação.
Entre os tecidos e órgãos que podem ser destinados a transplantes estão córneas, coração, pulmões, rins, fígado, pele, entre outros. Em um cenário em que os órgãos estejam viáveis, um único doador pode beneficiar várias pessoas.
Mateus ressalta, porém, que não é possível determinar antecipadamente quantos receptores serão beneficiados. A decisão depende da avaliação de cada órgão após a captação.
“Isso é muito bem avaliado. Não posso dizer precisamente quantas pessoas um paciente vai beneficiar”, explica.
SANTA CATARINA SE DESTACA NA DOAÇÃO
O trabalho desenvolvido pelas equipes catarinenses também aparece nos resultados estaduais. Segundo Mateus, Santa Catarina se destaca nacionalmente pelos índices de doação efetiva e pela quantidade de autorizações familiares.
Chapecó, conforme o profissional, alcançou neste ano a liderança estadual em doações efetivas por duas vezes consecutivas. Para ele, os números refletem um trabalho que envolve diferentes equipes e, principalmente, o cuidado na comunicação com os familiares.
“É reflexo de um grande trabalho de uma equipe comprometida em trazer dignidade, principalmente para a família e para o paciente”, afirma.
O acompanhamento próximo, a condução cuidadosa do diagnóstico e o esclarecimento das dúvidas são apontados como fatores que contribuem para os resultados.
O DESAFIO DE TRANSFORMAR DOR EM SIGNIFICADO
Para quem trabalha diretamente na UTI, a doação de órgãos envolve muito mais do que protocolos médicos. O momento é marcado pela perda de uma pessoa e pelo sofrimento de uma família que precisa tomar uma decisão em meio ao luto.
Por isso, Mateus considera a comunicação um dos maiores desafios. “Cada família possui uma realidade, uma compreensão e uma forma diferente de lidar com a morte. Cabe a nós, profissionais, adaptar a abordagem para que a informação seja realmente compreendida”. Mateus afirma que, ao mesmo tempo, existe o desafio de enfrentar os mitos que ainda cercam a doação e a morte encefálica.
No fim, a decisão permanece com a família. A equipe esclarece, acompanha e oferece a possibilidade. A autorização, porém, precisa ser consciente e respeitada, seja ela pelo “sim” ou pelo “não”.
O objetivo, segundo Mateus, é fazer com que, mesmo diante de uma perda irreparável, a família compreenda o que aconteceu e tenha sua decisão respeitada. E, quando há autorização, permitir que aquela morte possa representar uma nova oportunidade para outras pessoas.

