Itapiranguense está entre os 20 melhores do mundo no Skyrunning O50

Há conquistas que não cabem apenas em medalhas, rankings ou tempos registrados no cronômetro. Elas são construídas no silêncio das madrugadas de treino, na disciplina repetida diariamente e na convicção de seguir adiante mesmo quando o corpo parece pedir o contrário. Foi exatamente esse caminho que levou o itapiranguense Arno Reis, de 52 anos, aos imponentes Alpes Franceses para representar o Brasil no Campeonato Mundial de Skyrunning, uma das modalidades mais exigentes das corridas de montanha.

Natural de Itapiranga e atualmente morador de Chapecó, Arno carregou na bagagem muito mais do que equipamentos esportivos. Levou consigo as raízes do Oeste catarinense, a bandeira brasileira e a certeza de que o talento aliado ao trabalho é capaz de superar fronteiras geográficas e limitações naturais. Afinal, um atleta formado em um país sem montanhas alpinas conquistou espaço entre os melhores do mundo justamente no cenário considerado o berço do esporte.

A convocação para integrar a Seleção Brasileira representou o reconhecimento de anos de dedicação. “Foi um misto de orgulho e responsabilidade. Ver meu nome na lista oficial para representar o Brasil na França foi a validação de todo o esforço e disciplina dedicados ao esporte”, resume.

Reis explica que a vaga não surgiu por acaso. “Ela foi conquistada com resultados consistentes no circuito nacional, somando medalhas importantes e uma pontuação suficiente para garantir a convocação oficial da Skyrunning Brazil, entidade reconhecida pela International Skyrunning Federation (ISF)”, comenta.

Muito além de uma corrida

Para quem está acostumado às provas de rua, imaginar uma corrida em meio aos Alpes exige mudar completamente a perspectiva.

O Skyrunning pouco lembra o asfalto. As competições acontecem acima dos dois mil metros de altitude, enfrentando subidas extremamente íngremes, terrenos instáveis, pedras soltas, cristas rochosas e trechos onde o atleta precisa utilizar mãos e pés para continuar avançando. “Não se trata apenas de correr. É necessário dominar técnicas de progressão em terrenos alpinos, controlar o medo da exposição em grandes alturas, interpretar cada metro do percurso e manter o equilíbrio físico e emocional durante horas”. Enquanto nas provas tradicionais o desafio principal costuma ser vencer o relógio, no Skyrunning o verdadeiro adversário é a própria montanha.

Um sonho construído passo a passo

Antes de descobrir as corridas de montanha, Arno já mantinha uma relação intensa com o esporte. Sua primeira paixão foi o ciclismo, tanto de estrada quanto o Mountain Bike. A mudança começou em 2018, quando ingressou no projeto “Bem Viver”, promovido em seu ambiente de trabalho. O que inicialmente parecia apenas uma nova atividade física rapidamente se transformou em um projeto de vida.

Desde os primeiros treinos, adotou uma preparação diferente. Nunca abandonou completamente nenhuma modalidade. Passou a dividir seus treinamentos entre asfalto, trilhas e ciclismo, formando uma base física extremamente versátil.

Essa combinação acabou se tornando um dos diferenciais que mais contribuíram para seu crescimento técnico.

Hoje, sua preparação reúne velocidade adquirida nas provas de rua, potência herdada do pedal e resistência construída nas montanhas.

Ciência, disciplina e persistência

Mesmo sendo atleta amador, Arno encara o treinamento com profissionalismo.

Cada sessão é planejada para desenvolver resistência, força muscular, velocidade e adaptação aos grandes desníveis das montanhas. Mas, segundo ele, a preparação mental é tão importante quanto a física.

“No Skyrunning, a cabeça governa o corpo quando a altitude e a fadiga atingem o pico. Trabalhei muito o controle do estresse para enfrentar os trechos de maior exposição técnica.” Essa capacidade foi colocada à prova justamente na reta final da preparação.

Nos dois meses que antecederam o Mundial, fortes dores no joelho chegaram a colocar em dúvida sua participação na competição. A recuperação exigiu mudanças importantes na rotina de treinos, redução de cargas e ajustes específicos para preservar a condição física sem comprometer o desempenho.

Mesmo diante das dificuldades, a desistência nunca foi considerada uma opção.

O desafio dos Alpes

A prova Skyrun du Grand Mont apresentou exatamente aquilo que faz do Skyrunning uma modalidade única no cenário esportivo global. Realizada no distrito de Arêches-Beaufort, na região de Savoie, nos Alpes Franceses, a competição ocorreu nos dias 3 e 4 de julho de 2026. O desafio teve início no dia 3 com o Vertical Kilometer (VK), disputado em um percurso explosivo de 3,8 km com 880 metros de desnível positivo. No dia 4, ocorreu a Skyrace, que passou por uma alteração de última hora em função das condições de neve na montanha, ajustando a distância de 28 km para 24 km, mas preservando os impressionantes 2.500 metros de subida acumulada na severa travessia pelo Le Grand Mont. “O cenário impressionava pela beleza. Também intimidava. Ao contrário das montanhas brasileiras, onde predominam trilhas de terra e vegetação, os Alpes apresentam longos trechos de rocha exposta, pedras soltas, neve e passagens extremamente técnicas. A adaptação precisou acontecer rapidamente”, afirma Arno.

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Enfrentando a neve durante a prova
5 Momento mais desafiador da prova, quando o uso do kit Via Ferrata foi obrigatório para a travessia da montanha
Momento mais desafiador da prova, quando o uso do kit Via Ferrata foi obrigatório para a travessia da montanha

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